Todos os tipos de deficiências merecem
uma atenção diferenciada, principalmente no contexto educacional, pois inserir
uma pessoa com determinada deficiência em um contexto educacional igual ao
demais, somente para dizer que ela está inserida naquele meio, não terá bons
resultados. Devemos ter a consciência que para o deficiente auditivo ser
englobado no contexto social, para interagir junto a sociedade como um todo,
ele deverá ser educado de uma maneira bem direcionada a sua deficiência, com
isso surge a necessidade e a importância do bilinguismo, que é (num sentido
escrito) uma proposta de ensino usada por escolas que se propõem a tornar
acessível à criança duas línguas no contexto escolar. Os estudos têm apontado
para essa proposta como sendo mais adequada para o ensino de crianças surdas,
tendo em vista que se considera a língua de sinais como língua natural e parte
desse pressuposto para o ensino da língua escrita. No entanto, o reconhecimento
dos surdos enquanto pessoas surdas e da sua comunidade linguística estão
inseridos dentro de um conceito mais geral de bilinguismo.
Esse conceito mais geral de
bilinguismo é determinado pela situação sociocultural da comunidade surda como
parte do processo educacional. O fato de serem pressupostas duas línguas no
processo educacional da pessoa surda, a Língua Brasileira de Sinais e a Língua
Portuguesa, está inserido num processo educacional. Bilinguismo para surdos
atravessa a fronteira linguística e inclui o desenvolvimento da pessoa surda
dentro da escola e fora dela dentro de uma perspectiva sócio antropológica. O
bilinguismo, tal como entendemos, é mais do que o uso de duas línguas. É uma
filosofia educacional que implica em profundas mudanças em todo o sistema
educacional para surdos. A educação bilíngue consiste, em primeiro lugar, na
aquisição da língua de sinais, sua língua materna. Lacerda & Mantelatto
(2000) afirmam que “o bilinguismo visa à exposição da criança surda à língua de
sinais o mais precocemente possível, pois esta aquisição propiciará ao surdo um
desenvolvimento rico e pleno de linguagem e, consequentemente, um
desenvolvimento integral”. A comunidade dos surdos está inserida na grande
comunidade de ouvintes que, por sua vez, caracteriza-se por fazer uso da
linguagem oral e escrita. O bilinguismo propõe que o surdo comunique-se
fluentemente na sua língua materna (língua de sinais) e na língua oficial de
seu país. Oral ou escrita? Essa questão polêmica divide os educadores de
surdos. No entanto, todos concordam que o desenvolvimento cognitivo, afetivo,
sociocultural e acadêmico das crianças surdas não depende necessariamente de
audição, mas sim do desenvolvimento espontâneo da sua língua. A língua de
sinais propicia o desenvolvimento linguístico e cognitivo da criança surda,
facilita o processo de aprendizagem, serve de apoio para a leitura e
compreensão.
De acordo com Souza (1998), “a partir
do momento em que os surdos passaram a se reunir em escolas e associações e se
constituíram em grupo por meio de uma língua, passaram a ter a possibilidade de
refletir sobre um universo de discursos sobre eles próprios, e com isso
conquistaram um espaço favorável para o desenvolvimento ideológico da própria
identidade”. Em síntese, a integração plena da pessoa surda passa, necessariamente,
pela garantia de convívio em um espaço, onde não haja repressão de sua condição
de surdo, onde possa expressar-se da maneira que mais lhe satisfaça, mantendo
situações prazerosas de comunicação e de aprendizagem. Para Vygotsky (1989), “a
trajetória principal do desenvolvimento psicológico da criança é uma trajetória
de progressiva individualização, ou seja, é um processo que se origina nas
relações sociais, interpessoais e se transforma em individual, intrapessoal”.
imagem: http://jionline.fmatitude.com.br/wp-content/uploads/2014/01/Libras-crianas.jpg
Referências:
O
BILINGUISMO APLICADO À EDUCAÇÃO ESPECIAL DE SURDOS. Disponível em<
http://www.ufrgs.br/psicoeduc/wiki/index.php/O_BILINGUISMO_APLICADO_%C3%80_EDUCA%C3%87%C3%83O_ESPECIAL_DE_SURDOS>.
Acesso em 12 de Agosto de 2014.

2 comentários:
Exatamente. Em tempos de inclusão, espera-se que a escola, mais do nunca, seja um espaço que acolha a diversidade e propicie uma educação de qualidade. Assim, o contexto acima argumenta muito bem sobre o processo de inclusão, apontando ainda que é o domínio da língua de sinais que tornará o surdo apto a produzir sua comunicação e adquirir conhecimentos, assumindo papel semelhante ao que a oralidade desempenha para o aluno ouvinte especialmente.
Olá Neudiane!
Você escolheu um bom assunto e o abordou de maneira objetiva, parabéns!A perspectiva bilíngüe, assim como salientado em seu comentário, transcende a questão puramente lingüística ela situa-se em um contexto multicultural. Esta educação é uma forma de garantir não somente o acesso e sim a permanência do surdo na escola. Portanto, o bilinguismo na educação de surdos representa questões políticas, sociais e culturais. Infelizmente constata-se que a língua de sinais brasileira é admitida, entretanto o português mantém-se como a língua mais importante dos espaços escolares. Isso parece muito contraditório; haja vista que muitas das vezes na educação dos surdos a língua de sinais brasileira aparece como coadjuvante e o português continua sendo o mais importante. A meu ver isto configura uma prática de exclusão.
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